A edição comemorativa de 50 anos da revista New Scientist (publicada em Novembro de 2006), intitulada “The Big Questions“, elegeu “O que é a consciência?” como uma das principais questões que o homem ainda está por responder. O artigo escrito por Paul Broks, um neuropsicólogo que alguns crêem ser um potencial Oliver Sacks da literatura científica popular, é escrito por um narrador no futuro, rememorando e refletindo sobre o progresso da ciência e sobre algumas das questões filosóficas que o acompanham. O narrador está completando 121 anos de idade e teve o privilégio de assistir a uma “revolução copernicana do eu (self)”:

I have witnessed … a historical shift from the age of solipsism, when we were all at the centre of the universe – self-loving, self-loathing, self-absorbed – to an era of self-dispersion when ego is deemed constrictive. I saw the science of selfhood figure increasingly in the great social and moral debates of the century, from age-old wrangles about euthanasia and free will to disputes over brain enhancement, cyberethics, and the fusion, fission and transposition of minds.

Broks espirituosamente responde, ou melhor, apresenta uma das respostas possíveis à questão de como o cérebro, com suas diversas funções distribuídas, chega a um senso unificado de identidade. O narrador observa que, no nosso presente, “alma” não figura no léxico das neurociências, mas é uma questão ainda controversa se o primo laico da alma, o “eu”, tem algum papel nestas. Refletindo décadas após o tempo presente, ele condescendentemente reconhece que a ilusão de um fantasma na máquina, i.e. a noção de que às sombras do cérebro existe um “eu” observador, tivesse apelo. Mas tal idéia acabaria (ou acabará) sendo irreconciliável com os fatos brutos com que a neurobiologia do cérebro vem nos apresentando e ainda nos apresentará. (Nota-se aqui uma veia de eliminativismo.)

Se não há um “eu”, ou qualquer substrato que permaneça intacto a todo tipo de mudança e ao qual possamos atribuir nossa identidade pessoal, uma das alternativas e aquela a qual Broks faz referência é a noção de que simplesmente não há substrato, como afirmam Hume, James, Parfit e — antes destes — o Buda, Dōgen Zenji e inúmeros outros desta tradição. Hume notou que, quando da introspecção, nos apercebemos de um grupo de pensamentos, sentimentos e percepções, mas nunca nos apercebemos de uma substância à qual possamos chamar “o eu” (Treatise, I, IV, vi). Ele infere que não há nada que possa ser dito relativamente ao “eu” além de que este é um feixe (bundle) ou coleção de percepções transitórias.

William James, em seu monumental Principles of Psychology, disse:

In its widest possible sense … a man’s Self is the sum total of all that he can call his, not only his body and his psychic powers, but his clothes and his house, his wife and children, his ancestors and friends, his reputation and works, his lands and horses, and yacht and bank-account. (…) As psychologists, we need not be metaphysical at all. The phenomena are enough. The passing thought itself is the only verifiable thinker. And its empirical connection with the brain process is the ultimate known law.

No sistema de Parfit, por sua vez, indivíduos são apenas cérebros e corpos, mas a identidade não pode ser reduzida a nenhum destes. Identidade, no sentido clássico, não importa. Pessoas existem da mesma maneira que nações ou clubes existem. Uma pergunta parfitiana é: dada a chance de manter a sua identidade pessoal ou a sua continuidade psicológica, qual você escolheria? Alguém preferiria morrer (uma perda de caracter mas uma persistência da identidade pessoal), ou ao invés disso ter sua identidade pessoal fragmentada, mas reter a sua personalidade?

O narrador de Broks, em algum ano próximo ao século 22, continua:

Belief in an inner essence, or central core, of personhood, was called “ego theory”. The alternative, “bundle theory”, made more neurological sense but offended our deepest intuitions. Too bad, I thought. We should learn to face facts. The philosopher Derek Parfit put it starkly: we are not what we believe ourselves to be. Actions and experiences are interconnected but ownerless. A human life consists of a long series – or bundle – of enmeshed mental states rolling like tumbleweed down the days and years, but with no one (no thing) at the centre. An embodied brain acts, thinks, has certain experiences, and that’s all. There is no deeper fact about being a person. The enchanted loom of the brain does not require a weaver.

O texto segue com alguns dos avanços científicos que apoiam a tese descrita acima e, perto do fim, Broks traz à tona uma questão que segue da rejeição da identidade pessoal: as palavras que lemos em um texto, de quem são? Do leitor ou do autor? Ele afirma que escrevemos para tomarmos poder da voz na cabeça de outro. De tal modo, as palavras do autor tomam posse dos circuitos de linguagem do cérebro do leitor. Assim, o autor se torna por algum tempo, a voz interna do leitor. Se isso quer dizer que, de certo modo, o autor se torna o leitor (i.e. eu me torno você), diz Broks, é uma questão séria. “O texto escrito é uma forma primitiva mas poderosa de realidade virtual. No começo era o verbo”. O narrador finaliza:

“When did I realise I was God?” says the psychotic aristocrat in the old film The Ruling Class. “Well, I was praying and I suddenly realised I was talking to myself.” My epiphany was less grandiose. It was quite the opposite. I realised I was talking to myself, but no one was listening.



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